Muito além de ser apenas a prima do Superman, Kara Zor-El protagonizou algumas das histórias mais elogiadas da DC Comics. E o novo filme pode finalmente apresentar essa versão da heroína para o grande público.

Durante muito tempo, a Supergirl carregou um problema que poucos heróis da DC precisaram enfrentar.
Ela era famosa, mas nem sempre era compreendida.
Todo mundo sabia quem ela era. Todo mundo reconhecia o uniforme, a capa vermelha e o símbolo da Casa de El estampado no peito. Mas, por décadas, grande parte do público enxergou a personagem apenas como uma extensão do Superman. Uma coadjuvante dentro do universo de seu primo mais famoso.
O curioso é que os quadrinhos contam uma história bem diferente.
Nos últimos anos, Kara Zor-El protagonizou algumas das obras mais interessantes da DC Comics, explorando temas que raramente aparecem nas histórias do Homem de Aço. Enquanto Clark Kent costuma representar esperança, estabilidade e inspiração, Kara frequentemente é retratada como alguém tentando encontrar seu lugar em um universo que lhe tirou quase tudo.
Agora, com a chegada do novo filme da Supergirl aos cinemas, existe um momento perfeito para conhecer as HQs que ajudaram a transformar a heroína em uma das personagens mais fascinantes da DC moderna.
Antes de tudo: quem é a Supergirl?

Assim como Superman, Kara Zor-El nasceu em Krypton. A diferença é que ela se lembra do planeta que perdeu.
Essa característica pode parecer pequena, mas muda completamente a forma como a personagem enxerga o mundo.
Enquanto Clark foi criado na Terra desde bebê e construiu toda sua identidade entre os humanos, Kara chegou ao planeta já carregando memórias, traumas e a lembrança de uma civilização inteira destruída. Em muitas histórias, esse sentimento de deslocamento se torna uma parte fundamental de sua personalidade.
É justamente essa perspectiva que faz da Supergirl uma personagem tão interessante. Ela não é apenas uma versão feminina do Superman. Ela é alguém que carrega feridas diferentes, desafios diferentes e uma visão muito particular sobre o que significa ser uma heroína.
Supergirl: Woman of Tomorrow (2021-2022)

Se existe uma HQ obrigatória para quem pretende assistir ao novo filme, é esta.
Publicada entre 2021 e 2022, Supergirl: Woman of Tomorrow não apenas revitalizou a personagem nos quadrinhos, como também ajudou a redefinir a forma como muitos leitores enxergam Kara Zor-El. Escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely, a minissérie rapidamente se tornou uma das obras mais elogiadas da DC na última década.
A história começa quando Kara conhece Ruthye, uma jovem alienígena determinada a vingar o assassinato do pai. O que parece ser uma simples jornada de vingança se transforma em uma viagem emocionante através do espaço, levando as duas personagens a confrontarem perdas, escolhas difíceis e cicatrizes que nunca desapareceram completamente.
O grande mérito da HQ está na maneira como ela enxerga a Supergirl. Em vez de retratá-la apenas como uma heroína poderosa, Tom King explora seu lado mais humano. Kara carrega lembranças de Krypton, sente o peso da solidão e convive com traumas que a diferenciam profundamente do Superman. Essa abordagem dá à personagem uma profundidade emocional que poucas histórias haviam alcançado até então.
Não é exagero dizer que Woman of Tomorrow se tornou a principal referência moderna da Supergirl. E justamente por isso, saber que o novo filme busca inspiração nessa obra é um dos motivos que mais animam os fãs da DC.
Supergirl: Being Super (2016)

Entre tantas aventuras cósmicas e grandes eventos do universo DC, Being Super escolhe um caminho muito mais intimista.
Escrita por Mariko Tamaki e ilustrada por Joëlle Jones, a minissérie apresenta uma versão alternativa da origem da personagem, mas faz isso de uma forma bastante diferente do que normalmente vemos nos quadrinhos de super-heróis.
Em vez de focar imediatamente nos poderes, a narrativa se preocupa em mostrar quem Kara é como pessoa. Acompanhamos sua adolescência, suas inseguranças, amizades, conflitos familiares e o processo gradual de descobrir que existe algo extraordinário dentro dela.
Essa escolha torna a leitura extremamente acessível, inclusive para quem nunca acompanhou a personagem antes. Em muitos momentos, a HQ se aproxima mais de um drama de formação do que de uma aventura tradicional da DC.
O resultado é uma história sensível, emocional e surpreendentemente madura. Talvez não seja a HQ mais famosa da Supergirl, mas certamente está entre aquelas que melhor entendem sua essência.
Para novos leitores, poucas obras funcionam tão bem como porta de entrada.
Supergirl and the Legion of Super-Heroes (2004-2006)

Algumas histórias da Supergirl são lembradas constantemente pelos fãs.
Outras acabam ficando escondidas em listas e recomendações mais especializadas.
A fase Supergirl and the Legion of Super-Heroes pertence à segunda categoria.
Escrita por Mark Waid, a série leva Kara para o século 31, onde encontra a Legião dos Super-Heróis em um período particularmente turbulento. Nesse futuro distante, os ideais representados por Superman já não possuem a mesma força de antes, e a chegada da jovem kryptoniana acaba funcionando como um lembrete do que aqueles símbolos significam.
O conceito pode parecer simples à primeira vista, mas a execução é muito mais interessante do que isso.
Ao colocar a personagem em um ambiente completamente diferente de seu contexto habitual, a HQ permite que Kara desenvolva sua própria identidade sem depender constantemente da presença de Superman. Ela deixa de ser apenas uma integrante da família El e passa a assumir um papel central dentro daquela narrativa.
Além disso, a série explora temas como legado, inspiração e responsabilidade, mostrando como os símbolos heroicos podem atravessar gerações e continuar influenciando pessoas séculos depois de sua criação.
Não costuma ser a primeira recomendação para novos leitores, mas é uma leitura que recompensa quem deseja conhecer facetas menos exploradas da personagem.
Supergirl (1996) de Peter David

Falar sobre a história editorial da Supergirl sem mencionar Peter David seria praticamente impossível.
Sua fase na década de 1990 apresentou uma das versões mais ousadas da personagem. Em vez de seguir caminhos previsíveis, o autor explorou conceitos inesperados e ajudou a construir uma identidade própria para a heroína em um período em que ela ainda lutava para sair da sombra do Superman.
A proposta era tão diferente que chegou a dividir opiniões entre os leitores mais tradicionais. Na época, a personagem passou por mudanças significativas em sua origem e em seus poderes, afastando-se da imagem clássica que muitos fãs associavam à Kara Zor-El. Peter David aproveitou essa liberdade criativa para explorar temas como espiritualidade, responsabilidade, amadurecimento e autodescoberta, algo relativamente raro nos quadrinhos de super-heróis daquele período.
Mais do que contar aventuras, a série buscava responder uma pergunta importante: quem é a Supergirl quando ela não está sendo comparada ao Superman?
Essa abordagem ajudou a transformar a personagem em algo muito mais complexo do que uma simples contraparte feminina do Homem de Aço. Ao longo da fase, vemos uma heroína tentando encontrar seu próprio lugar no universo DC enquanto enfrenta desafios que vão muito além das ameaças tradicionais dos quadrinhos.
Mesmo hoje, muitos leitores consideram essa uma das fases mais criativas já publicadas com o nome Supergirl. Embora não tenha servido de inspiração direta para o novo filme, continua sendo uma leitura fascinante para quem deseja entender como a personagem evoluiu ao longo das décadas e por que tantos fãs defendem essa fase como uma das mais importantes de sua história editorial.
Cosmic Adventures in the 8th Grade

Talvez esta seja a recomendação mais inesperada da lista.
Quando se fala em Supergirl, a maioria dos fãs pensa imediatamente em grandes batalhas cósmicas, invasões alienígenas ou histórias dramáticas envolvendo Krypton. Cosmic Adventures in the 8th Grade segue um caminho completamente diferente.
A HQ acompanha Kara durante a adolescência, equilibrando a vida escolar com situações absurdamente divertidas e desafios típicos de quem ainda está tentando descobrir seu lugar no mundo.
O tom é muito mais leve do que o das outras histórias mencionadas nesta lista, mas isso não significa que ela tenha menos valor. Pelo contrário. A obra mostra uma característica fundamental da personagem que às vezes fica escondida sob o peso das grandes narrativas épicas: seu carisma.
Ao longo das páginas, vemos uma Supergirl mais descontraída, mais espontânea e muito mais próxima da experiência de uma adolescente comum. É uma abordagem que ajuda a lembrar que, antes de ser uma heroína interplanetária, Kara também precisou enfrentar inseguranças, dúvidas e situações embaraçosas como qualquer jovem.
Pode não ser a HQ mais importante da personagem, mas certamente é uma das mais divertidas e acessíveis para leitores de todas as idades.
A morte que mudou a história da DC

Se existe um momento capaz de resumir a importância da Supergirl para o universo DC, ele aconteceu em 1985.
Na época, a editora publicou Crise nas Infinitas Terras, uma saga que mudaria para sempre a estrutura de seu multiverso. Em meio a uma história repleta de heróis e ameaças cósmicas, foi justamente Kara Zor-El quem protagonizou um dos momentos mais emocionantes de toda a narrativa.
Ao enfrentar o Antimonitor, a Supergirl faz um sacrifício que permanece entre as cenas mais marcantes da história dos quadrinhos. Sua morte não apenas chocou os leitores da época, como também demonstrou que a personagem havia se tornado muito mais importante do que muitos imaginavam.
O impacto foi tão grande que a DC manteve a heroína fora da continuidade principal durante anos. Para uma geração inteira de leitores, aquela passou a ser a despedida definitiva da personagem.
Décadas depois, a cena continua sendo lembrada como um dos momentos mais emblemáticos da história da editora. Não apenas pela tragédia em si, mas porque ajudou a consolidar Kara Zor-El como uma figura fundamental dentro do universo DC.
Curiosamente, aquela história acabou representando apenas uma parte de sua trajetória.
Os anos seguintes mostrariam que a Supergirl ainda tinha muito mais a oferecer. Novos autores encontrariam maneiras diferentes de explorar a personagem, novas gerações de leitores passariam a enxergá-la com outros olhos e histórias como Being Super e Woman of Tomorrow ajudariam a construir uma versão ainda mais rica e interessante da heroína.
Em outras palavras, aquela não foi a história que definiu para sempre quem era Kara Zor-El.
Foi apenas um dos capítulos que a trouxeram até aqui.
O momento de Kara finalmente chegou
Durante muito tempo, a Supergirl viveu à sombra do maior herói da DC Comics. Era quase impossível escapar das comparações. Afinal, ela carregava o mesmo símbolo no peito, os mesmos poderes e a mesma herança kryptoniana.
Mas os quadrinhos mais recentes provaram algo que muitos leitores já sabiam há anos: Kara Zor-El funciona melhor quando não tenta ser a próxima Superman.
Suas melhores histórias falam sobre perda, pertencimento e identidade. Falam sobre alguém que viu seu mundo desaparecer e precisou encontrar um novo lugar para chamar de lar.
Por isso, existe uma boa chance de que muita gente entre no cinema acreditando que verá apenas uma versão feminina do Homem de Aço.
E saia da sessão descobrindo algo muito diferente.
Se o novo filme conseguir capturar a essência de histórias como Woman of Tomorrow, o público finalmente conhecerá a personagem que os quadrinhos vêm construindo há anos: uma heroína forte, complexa e completamente capaz de brilhar por conta própria.
Porque, no fim das contas, Kara Zor-El nunca foi apenas a prima do Superman.
Ela sempre foi uma grande personagem.
Só estava esperando a oportunidade certa para mostrar isso ao mundo.
Créditos e referências
Matéria produzida com base em publicações oficiais da DC Comics, incluindo Supergirl: Woman of Tomorrow, Supergirl: Being Super, Supergirl and the Legion of Super-Heroes, Supergirl (1996), Cosmic Adventures in the 8th Grade e Crisis on Infinite Earths, além de informações divulgadas pela DC Studios sobre o novo filme da personagem.
Por Aldemir Silva | Base Livre