Quase descartado pela Warner Bros., o longa do Coiote entrega humor, aventura e uma história simples que funciona justamente por entender o que o público espera dele.

Durante anos, Coyote vs. Acme ficou conhecido não pelo que mostrava na tela, mas pela polêmica decisão da Warner Bros. Discovery de engavetar um filme praticamente pronto. Agora que finalmente chegou aos cinemas, fica ainda mais difícil entender como o estúdio esteve tão perto de impedir seu lançamento.

O longa não tenta reinventar os Looney Tunes ou transformar o Coiote em algo distante daquele personagem que conhecemos. Sua proposta é simples: pegar as incontáveis tentativas fracassadas de capturar o Papa-Léguas e perguntar o que aconteceria se ele decidisse processar a empresa responsável por todos aqueles produtos defeituosos.

A resposta é uma divertida mistura de animação, comédia e filme de tribunal.

Uma ideia absurda que funciona

Depois de ser esmagado, explodido, arremessado e traído inúmeras vezes pelos equipamentos da ACME, o Coiote procura Kevin Avery, um advogado em dificuldades interpretado por Will Forte. Do outro lado do processo está Buddy Crane, personagem de John Cena e representante da poderosa empresa.

É uma premissa que parece ter saído diretamente de um desenho clássico dos Looney Tunes, mas o roteiro encontra espaço para brincar com os clichês das produções jurídicas e com o comportamento das grandes corporações.

O g1 destacou justamente essa combinação ao definir o longa como uma sátira divertida e animada dos filmes de tribunal. Já a revista britânica Sight and Sound, do British Film Institute, enxergou algo ainda maior: uma crítica inteligente ao poder corporativo e à forma como pessoas comuns acabam enfrentando sistemas construídos para favorecer empresas gigantes.

Essa camada existe e ajuda a história, especialmente na trajetória do advogado da ACME. Ainda assim, o filme nunca esquece aquilo que deveria ser sua prioridade: divertir.

Nem todo filme precisa carregar o peso do mundo

Existe espaço para filmes profundos, histórias complexas e produções que deixam o público pensando durante dias. Mas também precisamos daquele cinema que permite sentar, esquecer um pouco os problemas e acompanhar uma história engraçada sem a obrigação de encontrar um grande significado escondido em cada cena.

Coyote vs. Acme entende isso muito bem. É leve sem tratar o público como bobo, trabalha uma mensagem sem interromper a diversão e usa a nostalgia sem depender apenas dela. O humor físico, os exageros e a lógica impossível dos desenhos continuam presentes, mas agora dentro de uma história nova.

Talvez seja justamente esse tipo de comédia que esteja fazendo falta. Franquias como Todo Mundo em Pânico, cada uma à sua maneira, cresceram porque entenderam que existe público para filmes interessados principalmente em provocar risadas. Nem toda produção precisa preparar uma saga, construir um universo compartilhado ou prometer uma sequência antes mesmo de terminar.

Às vezes, ela só precisa cumprir bem aquilo que se propôs a fazer.

Por que a Warner desacreditou do filme?

A Warner Bros. Discovery anunciou em novembro de 2023 que não lançaria Coyote vs. Acme, embora o longa estivesse concluído e tivesse recebido avaliações positivas em sessões-teste. Na época, veículos como Deadline e The Hollywood Reporter informaram que o estúdio pretendia registrar uma baixa contábil estimada em aproximadamente US$ 30 milhões.

Portanto, não existem sinais de que o cancelamento tenha acontecido porque o filme era considerado ruim. Tudo indica que a decisão fez parte de uma estratégia financeira e de redução de custos adotada pela companhia naquele período. O caso ganhou repercussão justamente porque artistas, profissionais da animação e o próprio diretor Dave Green defenderam publicamente a qualidade do trabalho.

Após a reação negativa, a Warner permitiu que o filme fosse oferecido a outras empresas. Em março de 2025, a distribuidora independente Ketchup Entertainment adquiriu os direitos mundiais por cerca de US$ 50 milhões e finalmente levou a produção aos cinemas. A trajetória completa da controvérsia também foi recuperada no Brasil pelo Imirante.

O mais curioso é que a recepção inicial confirmou aquilo que as antigas sessões-teste já indicavam. Coyote vs. Acme alcançou 96% de aprovação da crítica e 95% entre espectadores verificados no Rotten Tomatoes, além de receber nota “A” do público consultado pelo CinemaScore.

Segundo a Associated Press, o filme estreou com cerca de US$ 15,5 milhões na América do Norte, ocupando a segunda posição da bilheteria e registrando a maior abertura da história da Ketchup Entertainment. Como a carreira comercial ainda está em andamento e o orçamento é estimado em aproximadamente US$ 70 milhões, é cedo para afirmar que o longa já se pagou. Mas seu sucesso de público e crítica não deixa muitas dúvidas.

Uma vitória que precisa abrir espaço para novas ideias

O caso de Coyote vs. Acme não deveria servir apenas para mostrar que a Warner tomou uma decisão questionável. Ele também revela que personagens conhecidos ainda podem render boas histórias quando os estúdios apostam em ideias criativas, em vez de simplesmente refazer filmes que já deram certo.

Não há problema nos remakes — alguns funcionam e continuam despertando interesse. Confesso que assistiria facilmente a uma nova versão de O Máskara ou até de As Branquelas. Mas seria um desperdício se a comédia sobrevivesse apenas repetindo o passado.

Coyote vs. Acme usa personagens clássicos, mas coloca o Coiote em uma situação inédita, encontra uma forma inteligente de adaptar sua eterna perseguição ao Papa-Léguas e entrega exatamente aquilo que promete: diversão e entretenimento.

Depois de quase desaparecer dentro de uma gaveta, o filme ganhou sua chance e mostrou que havia público esperando por ele. Agora, esperamos que Hollywood aprenda a lição e volte a investir em mais comédias leves, engraçadas e, principalmente, em novas histórias.

Leia também: O sucesso do Homem-Aranha deixa uma lição para James Gunn: grandes universos começam com grandes personagens

Créditos e fontes

Texto e análise: Base Livre

Fontes nacionais: g1 e Imirante.

Fontes internacionais: Associated Press, Deadline, The Hollywood Reporter, Sight and Sound/British Film Institute e Rotten Tomatoes.

Crédito da imagem de destaque: Divulgação/Ketchup Entertainment e Warner Bros. Pictures.

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