Woody e Buzz atravessaram gerações, despedidas e até um derivado espacial. O segredo dessa amizade com o público vai além da saudade.
Por Aldemir da Silva

Existe uma pequena armadilha em colocar Toy Story para assistir com os filhos: você começa dizendo que escolheu o filme para eles e, pouco depois, está pedindo silêncio porque o Woody vai falar. A criança acompanha a aventura; você reencontra personagens que conheceu antes de descobrir o que era um boleto. Não estamos exatamente assistindo ao mesmo filme.
Toy Story 5 chegou ao Disney+ em 23 de setembro, depois de arrecadar mais de US$ 1,14 bilhão nos cinemas. É o terceiro capítulo consecutivo da série principal a ultrapassar o bilhão, ao lado de Toy Story 3 e Toy Story 4. Para uma turma que vive preocupada em acabar esquecida no armário, a procura continua bastante saudável.
Mas o que faz essa franquia durar tanto? Afinal, Hollywood já demonstrou que recuperar personagens queridos nem sempre significa ter uma boa história para contar com eles.
Woody já teve ciúme de Buzz. Agora a concorrência tem Wi-Fi
Desta vez, Bonnie ganha Lilypad, um tablet que disputa sua atenção com os brinquedos. Woody já achava complicado enfrentar um patrulheiro espacial com luzes e botões; imagine descobrir que o próximo concorrente oferece uma quantidade aparentemente infinita de distrações. De repente, aquela história de “ao infinito e além” ficou menos divertida para o cowboy.
Na minha leitura, a premissa encontra uma preocupação reconhecível para muitas famílias. O cuidado está em não reduzir a conversa à bronca de que tudo era melhor antes das telas. Até porque brinquedos já terminavam esquecidos debaixo da cama muito antes de alguém inventar uma senha de Wi-Fi.
Há uma ironia especialmente boa nessa escolha: o primeiro Toy Story, de 1995, foi o primeiro longa inteiramente animado por computador. A franquia que ajudou a mostrar o que a tecnologia podia fazer pelo cinema agora discute o espaço que ela ocupa na infância. Não é preciso rejeitar uma invenção para questionar como estamos usando essa invenção — e essa contradição oferece mais assunto do que simplesmente eleger o tablet como culpado.
Não é só saudade de um boneco
O carinho por Woody, Buzz e Jessie não surgiu apenas porque crescemos vendo seus rostos nas embalagens. Acompanhamos uma rivalidade virar amizade, entendemos o abandono de Jessie e chegamos à despedida de Andy. A Pixar construiu essas relações antes de cobrar a conta emocional. E cobrou, porque teve adulto saindo de Toy Story 3 precisando de um abraço e dizendo que era só alergia.
Essa é, para mim, uma das forças da série: as crianças podem se divertir com a aventura sem precisar compreender tudo o que toca os adultos. O filme não precisa interromper a história para explicar o significado de crescer. Basta mostrar alguém deixando um brinquedo para trás, e uma parte do público já entende mais do que gostaria.
Lightyear oferece um contraste interessante. O derivado de 2022, sobre o patrulheiro espacial que inspirou o brinquedo, arrecadou cerca de US$ 226 milhões mundialmente. Era uma proposta diferente, sem a convivência com Woody e os demais personagens. Tínhamos a aventura espacial, mas não aquela amizade que acompanhávamos havia anos.
Não dá para atribuir o resultado a uma única causa. Ainda assim, o contraste ajuda a lembrar que reconhecer um personagem não é o mesmo que se importar com qualquer história estrelada por ele. O traje pode ser familiar; a ligação com o público não vem instalada de fábrica.
Reencontro bom também precisa ter assunto
Claro que existe um interesse comercial por trás de cada continuação. Com três filmes principais seguidos acima do bilhão, seria surpreendente se a Disney estivesse discutindo a aposentadoria dos brinquedos. Mas também seria injusto tratar todo retorno como uma decisão sem possibilidade de render algo criativo.
Eu gosto da ideia de novas gerações encontrarem essa turma. O que não quero é que a franquia passe a depender de repetir despedidas e esperar que a gente chore por educação. A saudade ajuda a apertar o play; depois disso, o filme precisa caminhar com as próprias pernas.
Woody e Buzz já conquistaram um lugar na nossa memória. Agora, cada nova aventura precisa conquistar seu lugar na história deles. Porque visitar velhos amigos é ótimo — desde que eles não passem a noite inteira contando a mesma coisa.
Fontes e créditos
- Associated Press e perfil oficial de Toy Story
- The Numbers
- Disney/Pixar
- Pixar Animation Studios e Academia de Artes e Ciências Cinematográficas