Hal e John sustentam o drama, mas a primeira temporada deixa uma pergunta: por que economizar justamente no que torna o Lanterna Verde tão interessante?

Por Aldemir da Silva

Crédito Imagem: HBO/DC Studios

Comentários sobre o encerramento, sem revelar a solução do mistério.

O problema de Lanternas é que, entre uma boa cena e outra, fica aquela espera por algo que faça a gente pensar: “agora sim, era isso que eu queria ver”. Kyle Chandler e Aaron Pierre têm presença, a relação entre Hal Jordan e John Stewart rende bons momentos, mas a temporada termina e parte dessa vontade continua ali. Gostei de coisas que encontrei pelo caminho. Só achei que chegaríamos mais longe.

A inspiração em True Detective estava anunciada desde o começo. Tudo bem investigar um crime no interior dos Estados Unidos, desenvolver os personagens e diminuir o ritmo. Mas, quando você coloca dois Lanternas Verdes nessa história, leva junto uma expectativa que não desaparece porque alguém avisou numa entrevista que seria uma produção mais pé no chão.

Até porque o anel veio junto. E dava para usar melhor.

O que faltou além da luz verde

Não estou pedindo uma batalha de quarenta minutos com um vilão que vira fumaça no final. Queria ver mais soluções que só aqueles personagens poderiam encontrar: uma criação inesperada com o anel, uma maneira de salvar alguém que revelasse a experiência de Hal ou o jeito de pensar de John. A imaginação poderia participar da investigação e ajudar a desenvolver os dois.

Esse é o desperdício que mais incomoda. Temos uma ferramenta capaz de materializar pensamentos, mas frequentemente a conversa sobre seu uso acaba na carga da bateria. Para acompanhar preocupação com carregador, eu já tenho meu celular.

Os criadores fizeram uma escolha consciente. Em entrevista à DC, Chris Mundy explicou que o encerramento precisava resolver a relação entre os protagonistas; Damon Lindelof defendeu a possibilidade de concluir essa jornada sem uma grande sequência de ação. Entendo o raciocínio, mas senti falta de um momento em que a chegada de John a esse novo estágio também impressionasse visualmente. www.dc.com

Greg Mysogland, do ComicBook, questionou justamente a contenção visual da conclusão. Já Eric Diaz, do Nerdist, gostou do resultado emocional e ainda assim cobrou maior presença dos elementos dos quadrinhos. Essa combinação me parece bastante razoável: reconhecer o que funciona e continuar achando que ficou coisa boa demais de fora. comicbook.com

Gotham ajuda a explicar essa diferença

Em The Batman, a investigação nos leva para dentro da corrupção de Gotham. Em Pinguim, a disputa pelo poder explora as pessoas e as relações que sustentam aquele mundo. Na minha leitura, o realismo dessas obras aprofunda o que elas têm de mais interessante.

Com os Lanternas, há uma dimensão cósmica e uma liberdade criativa que acabam limitadas por essa aproximação do cotidiano. A escolha tem um custo. Para compensá-lo, o mistério e o drama precisam oferecer uma experiência especialmente marcante. Para mim, os bons momentos da temporada não chegam a compensar tudo o que ficou de fora.

Isso também merece atenção de James Gunn e Peter Safran. Os dois lideram a DC Studios e são produtores executivos da série, embora a autoria seja da equipe de Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King. Cabe à gestão avaliar como essas escolhas apresentam os personagens ao público, principalmente quando eles ainda estão conquistando seu espaço nesse universo. press.wbd.com

Ouvir as reclamações não exige colocar o roteiro em votação. Exige perceber que pedir uma experiência mais próxima dos quadrinhos pode ser um desejo legítimo, e não apenas resistência a novidades. Às vezes, o fã quer o arroz com feijão bem-feito antes de descobrir o que o chef resolveu desconstruir.

Eu gostaria que a próxima aparição de John aproveitasse o que Aaron Pierre construiu e desse ao personagem oportunidades de empolgar também como herói. Há material para isso. Só espero que a recompensa não fique sempre guardada para o próximo filme, a próxima temporada ou o próximo anúncio. O ingresso de hoje também merece valer a viagem.

Leia mais: Aaron Pierre fala sobre a responsabilidade de interpretar John Stewart em Lanterns

Fontes e créditos

  • DC / Joseph McCabe: declarações dos criadores sobre o encerramento.
  • ComicBook / Greg Mysogland: análise da contenção visual.
  • Nerdist / Eric Diaz: avaliação do final e dos elementos dos quadrinhos.
  • Warner Bros. Discovery / HBO: créditos oficiais da produção.

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