Quando Supergirl chegou aos cinemas, eu poderia ter feito o que muita gente faz hoje: assistir ao primeiro trailer, ler algumas opiniões nas redes sociais e publicar um texto dizendo se o filme era um sucesso ou um desastre. Mas preferi seguir outro caminho. Esperei para assistir ao longa e, só depois disso, mergulhei nas críticas, tanto as positivas quanto as negativas, tentando entender o que realmente fazia sentido e o que era apenas consequência do clima de polarização que tomou conta das discussões sobre filmes de super-heróis.

Assisti a vídeos de quem saiu encantado com a produção, li análises bastante duras de quem considerou o filme uma decepção e acompanhei debates sobre roteiro, figurino, fidelidade aos quadrinhos, atuações e escolhas criativas. Ao mesmo tempo, encontrei muitos elogios ao carisma da protagonista, às cenas de ação e à forma como o filme apresenta Kara Zor-El para uma nova geração de espectadores.

Depois de colocar tudo isso na balança, cheguei a uma conclusão bastante simples: Supergirl está longe de ser uma obra-prima, mas também está muito longe do desastre que parte da internet resolveu pintar.

Talvez o maior problema seja que o público tenha perdido a capacidade de enxergar o meio-termo. Hoje, um filme de super-herói parece ter apenas dois destinos possíveis: ou entra imediatamente para a lista dos melhores do gênero ou passa a ser tratado como um fracasso completo. Nesse cenário, sobra pouco espaço para produções que simplesmente cumprem bem aquilo que se propõem a fazer, e é exatamente nessa categoria que, na minha visão, Supergirl se encaixa.

Isso significa que o filme é perfeito? Claro que não. O roteiro poderia aprofundar alguns personagens, determinadas escolhas criativas certamente vão dividir os fãs mais antigos dos quadrinhos e existem momentos em que a narrativa prefere seguir um caminho mais seguro do que realmente surpreender. Ainda assim, essas limitações não anulam suas qualidades. O longa entrega uma aventura divertida, oferece boas sequências de ação, apresenta Kara Zor-El de forma competente dentro do novo DCU e estabelece uma base sólida para que a personagem cresça nos próximos capítulos desse universo compartilhado.

Talvez seja justamente aí que muita gente tenha criado uma expectativa desproporcional. Estamos falando do primeiro grande filme solo da Supergirl dentro de um universo cinematográfico que ainda está começando. Sua responsabilidade nunca foi redefinir o cinema de heróis ou superar produções que levaram mais de uma década para construir seu impacto. A missão do filme era apresentar uma personagem importante e despertar interesse pelo que vem pela frente, e, sob essa perspectiva, acredito que ele alcança esse objetivo.

Essa expectativa exagerada também tem relação com um fenômeno que vem se repetindo nos últimos anos. Depois do enorme sucesso de Avengers: Endgame, muitos espectadores passaram a esperar que todo lançamento fosse um evento histórico capaz de transformar completamente o gênero. O problema é que franquias não nascem gigantes. Elas são construídas passo a passo, acertando em alguns momentos, errando em outros e desenvolvendo seus personagens ao longo do caminho. Exigir que Supergirl carregasse sozinha esse peso parece uma cobrança desproporcional para um filme cuja principal função é abrir portas para o futuro.

Na minha opinião, os maiores problemas do longa nem sequer estão na tela. A estratégia da Warner para o lançamento acabou colocando o filme em uma situação bastante complicada. Supergirl chegou aos cinemas disputando atenção com produções de enorme apelo comercial e, como se isso não bastasse, ainda dividiu espaço com a Copa do Mundo FIFA de 2026, um período em que boa parte do público direciona seu tempo e seu dinheiro para outro tipo de entretenimento. Em um cenário assim, muitos espectadores simplesmente precisam escolher qual filme assistir, e uma personagem que ainda está sendo apresentada naturalmente encontra mais dificuldades para competir.

Existe ainda um aspecto que talvez seja o mais preocupante de todos: a forma como a internet passou a consumir cinema. Antes mesmo de muita gente assistir ao filme, já existiam opiniões definitivas circulando pelas redes sociais. Em vez de discutir a obra, parte do debate acabou sendo transformada em uma disputa para decidir rapidamente se Supergirl deveria ser celebrada ou condenada. É claro que críticas técnicas fazem parte da experiência de qualquer produção e ajudam a enriquecer a conversa, mas há uma diferença enorme entre analisar um filme e transformá-lo em mais um capítulo de uma guerra permanente entre torcidas.

No fim das contas, quem compra um ingresso para passar duas horas no cinema normalmente busca uma boa história, personagens interessantes e momentos capazes de divertir. Nem todo espectador sai da sessão pensando em debates sobre fidelidade absoluta aos quadrinhos ou em discussões que dominaram as redes sociais durante semanas.

Depois de assistir ao filme e ouvir argumentos dos dois lados, continuo com a mesma impressão que tive ao sair da sala de cinema. Supergirl representa um início consistente para a personagem dentro do novo DCU. Ela não redefine o gênero, provavelmente não entrará na lista dos maiores filmes da DC e certamente poderia ter sido melhor em alguns aspectos. Ainda assim, também não merece carregar o peso de um fracasso artístico que, sinceramente, não corresponde ao que aparece na tela.

Às vezes, um filme não precisa mudar a história do cinema para cumprir sua missão. Basta contar uma boa aventura, apresentar seus personagens de maneira convincente e fazer o público sair do cinema curioso para descobrir o que vem a seguir. Para mim, Supergirl consegue fazer exatamente isso. Talvez o maior desafio dos filmes de heróis atualmente não seja derrotar os vilões dentro da história, mas sobreviver ao julgamento instantâneo da internet, onde, em muitos casos, a sentença é publicada muito antes de as luzes da sala de cinema se apagarem.

Por Aldemir Silva – Base Livre

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